El Niño em 2026: o que muda no ar e como proteger os pulmões
Tem sido uma das perguntas mais frequentes no consultório nas últimas semanas: o El Niño previsto para 2026 pode prejudicar a respiração? A preocupação é pertinente. O fenômeno está se formando e deve acompanhar boa parte do ano, e, para quem convive com asma, DPOC, bronquiectasia ou outra doença respiratória crônica, o que de fato importa não é o nome do evento, e sim como ele altera o ar que se respira em São Paulo. São três mudanças concretas, todas previsíveis e, portanto, manejáveis com antecedência. Este artigo detalha o efeito de cada uma sobre os pulmões e os cuidados que oferecem mais proteção.
O que muda no ar que você respira
A intensidade exata do El Niño importa menos para a saúde do que se costuma supor. As previsões apontam um evento de intensidade moderada a forte e, na nossa região, ele tende a deslocar o clima em três direções que interessam diretamente ao aparelho respiratório. As temperaturas sobem, com ondas de calor mais frequentes e um inverno menos rigoroso, seguidos de uma primavera quente. A umidade do ar diminui, por vezes a níveis muito baixos. E a estiagem em outras regiões do país favorece queimadas, cuja fumaça percorre longas distâncias e pode chegar até aqui. Calor, ar seco e fumaça: é essa combinação que repercute sobre a respiração.
Por que calor, ar seco e fumaça afetam os pulmões
O nariz e os brônquios funcionam melhor em ambiente úmido. Quando a umidade cai, a mucosa que reveste as vias respiratórias resseca e o muco responsável por limpar os pulmões torna-se mais espesso e mais lento. Em pacientes com asma ou rinite, o resultado costuma aparecer como tosse, irritação na garganta, congestão ou sangramento nasal e crises desencadeadas com mais facilidade.
O calor traz ainda um agravante menos lembrado: o ozônio. Em tardes quentes, ensolaradas e com pouco vento, poluentes liberados por veículos, indústrias e queimadas sofrem reações químicas pela ação da luz solar e formam ozônio próximo ao solo, exatamente na camada de ar que respiramos. Diferente do ozônio da estratosfera, que ajuda a filtrar a radiação ultravioleta, esse ozônio mais baixo é prejudicial à saúde. Ele irrita as vias aéreas, aumenta a inflamação respiratória e pode piorar sintomas em pessoas com asma ou DPOC. Em períodos de calor intenso, maior insolação e ar mais parado, condições que podem acompanhar episódios de El Niño em algumas regiões, esse problema tende a ganhar importância.
A fumaça das queimadas completa o quadro. Suas partículas finas são pequenas o suficiente para penetrar profundamente no pulmão e, em parte, atingir a circulação. No pulmão saudável, provocam irritação passageira; no pulmão já comprometido, podem precipitar crises e até internação.
Quem precisa redobrar a atenção
Reconhecer quem está mais exposto evita dois extremos igualmente indesejáveis: o pânico e o descuido. O ar quente, seco e por vezes carregado de fumaça incomoda qualquer pessoa, mas costuma ter impacto maior em alguns grupos: pacientes com asma ou DPOC, portadores de bronquiectasia ou fibrose pulmonar, idosos, crianças pequenas, pessoas com doença cardíaca associada e quem se recupera de uma infecção respiratória recente. Estar nesse grupo não é motivo de alarme, mas sim de planejamento antecipado.
Como proteger os pulmões no período do El Niño
A proteção se apóia em duas frentes: reduzir a exposição aos agentes irritantes e manter a doença de base sob controle. Na prática, alguns cuidados concentram a maior parte do benefício.
- Acompanhe a qualidade do ar e organize o dia a partir dela. Aplicativos e sites de monitoramento indicam quando os níveis de poluição, ozônio ou fumaça estão elevados. Nesses dias, prefira caminhar e se exercitar no início da manhã ou em ambiente fechado, evitando o fim da tarde, período em que o ozônio costuma atingir o pico.
- Mantenha a hidratação do corpo e das vias respiratórias. Beba água ao longo do dia. A lavagem nasal com soro fisiológico ajuda a manter a mucosa úmida e a remover partículas, e o umidificador no quarto melhora a qualidade do sono, desde que higienizado com frequência para não se tornar fonte de fungos.
- Não interrompa o tratamento de manutenção. A medicação de controle previne a crise antes que ela se instale, e suspendê-la ou reduzi-la por conta própria, justamente no período mais desfavorável, é um dos enganos mais frequentes na prática clínica. A necessidade crescente de medicação de alívio já sinaliza que a dose precisa ser reavaliada pelo médico.
- Mantenha um plano de ação por escrito. Pacientes com asma ou DPOC se beneficiam de um plano definido em conjunto com o pneumologista, que orienta a conduta ao primeiro sinal de piora. Conhecer os passos com antecedência impede que uma descompensação inicial evolua para uma emergência.
- Use proteção adequada nos picos de fumaça. Em episódios intensos, a máscara do tipo PFF2 (N95), corretamente ajustada, reduz de forma significativa a inalação de partículas finas, proteção que máscaras de pano ou cirúrgicas não oferecem.
- Cuide da qualidade do ar dentro de casa. Mantenha as janelas fechadas nos horários de pior qualidade do ar, faça a limpeza com pano úmido em vez de varrer, o que evita ressuspender poeira, e preserve o ambiente livre de fumo.
- Mantenha a vacinação em dia. As vacinas contra influenza, pneumococo e Covid-19 reduzem o risco de infecções que, somadas ao ambiente desfavorável, costumam agravar o quadro respiratório.
Sinais de alerta para procurar o pneumologista
O cuidado domiciliar tem limites. Procure avaliação médica diante de falta de ar que não cede com a medicação habitual, tosse ou chiado que pioram a cada dia, necessidade crescente da medicação de alívio (a chamada bombinha), mudança na cor ou no volume do escarro, ou o surgimento de febre e cansaço desproporcional ao esforço. Quanto mais cedo o tratamento é ajustado, melhor o desfecho; com frequência, uma consulta oportuna resolve no início aquilo que evoluiria para uma internação.
Conclusão
O El Niño de 2026 não é motivo para medo, e sim para preparo. Em São Paulo, o que mais repercute sobre a respiração não é a chuva, mas o calor, o ar seco e a fumaça que pode chegar de regiões distantes, e a maior parte desses efeitos pode ser contornada com hábitos simples e tratamento bem ajustado. Para quem convive com uma doença respiratória, o momento de revisar o plano de cuidado é agora, antes da chegada do calor mais intenso. Procure seu pneumologista, para avaliar cada caso e definir a proteção mais adequada. Agende sua consulta e cuide da sua saúde respiratória com quem entende do assunto.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a consulta médica. Não utilize as informações aqui apresentadas para autodiagnóstico ou automedicação. Em caso de dúvidas sobre sua saúde, procure um médico.









